CONSTRUIR, NÃO DESTRUIR

terça-feira, 15 de janeiro de 2013



Vinte anos se passaram, podia-se crer que as reações suscitadas pelas reformas conciliares se apaziguariam, que os católicos perderiam a esperança na religião na qual haviam sido criados, que os mais jovens, não a tendo conhecido, entrariam nas fileiras da nova. Tal era ao menos a aposta feita pelos modernistas. Eles não se admiravam demasiadamente das contracorrentes, seguros de si mesmos nos primeiros tempos. Eles o ficaram menos em seguida: as múltiplas e essenciais concessões feitas ao espírito do mundo não davam os resultados antecipadamente gozados, ninguém queria mais ser sacerdote do novo culto, os fiéis se afastavam da prática religiosa, a Igreja que se queria a Igreja dos pobres tornava-se uma Igreja pobre, obrigada a recorrer à publicidade para fazer recolher o dinheiro do culto, e a vender seus imóveis.

Durante este tempo, a fidelidade à tradição se fortificava em todos os países cristãos e particularmente na França, na Suíça, nos Estados Unidos, na América Latina. O artífice da nova missa, Mons. Aníbal Bugnini, foi ele mesmo obrigado a verificar esta resistência mundial no seu livro póstumo¹. Resistência que não cessa de se desenvolver, de se organizar, de atrair o mundo. Não, o movimento “tradicionalista” não está “em perda de velocidade”, como escrevem de tempos em tempos os jornalistas progressistas para se tranqüilizarem. Onde há tanta gente na missa como em São Nicolau de Chardonnet, e também tantas missas, tantas visitas ao Santíssimo Sacramento, tantos belos ofícios? A Fraternidade de São Pio X conta no mundo setenta casas com ao menos um sacerdote, igrejas como a de Bruxelas, a que compramos ultimamente em Londres, a que foi colocada à nossa disposição em Marselha, escolas, quatro seminários.

Carmelos se abrem e já enxameiam. As comunidades de religiosos e de religiosas, criadas desde uma quinzena de anos ou mais e que aplicam estritamente a regra das ordens de que dependem, regurgitam de vocações, é preciso sem cessar ampliar os alojamentos, construir novos edifícios. A generosidade dos católicos fiéis não deixa de maravilhar-me, particularmente na França.


Os mosteiros são centros de irradiação, para aí se dirigem em grande número e freqüentemente de muito longe; jovens extraviados pelas ilusórias seduções do prazer e da evasão sob todas as suas formas aí encontram seu caminho de Damasco. Ser-me-ia preciso citar todos os lugares onde se conserva a verdadeira fé católica e que por esta razão atraem: Le Barroux, Flavigny sur Ozeraim, La Haye-aux-Bonshommes, as beneditinas de Alès, de Samairé, as irmãs de Fanjeaux, de Brignoles, de Pontcallec, as comunidades do padre Lecareux.

Viajando muito, eu vejo claramente por toda a parte a mão de Cristo que abençoa a sua Igreja. No México, o povo humilde expulsou das igrejas o clero reformador conquistado pela pretensa teologia da libertação, o qual queria retirar as estátuas de santos. “Não são as estátuas que partirão, sois vós”. As condições políticas nos impediram de fundar uma casa no México; é dum centro instalado em El Paso, na fronteira dos Estados Unidos, que irradiam os sacerdotes fiéis. Os descendentes dos Cristeros lhes fazem festa e lhes oferecem suas igrejas. Eu administrei ali 2.500 confirmações, chamado pela população.

Nos Estados Unidos, os jovens casais com numerosos filhos vão ter com os padres da Fraternidade. Em 1982 ordenei neste país os três primeiros sacerdotes formados inteiramente nos nossos seminários. Os grupos tradicionais se multiplicam, enquanto que as paróquias se degradam. A Irlanda que havia permanecido refratária às novidades, fez sua reforma desde 1980, altares foram lançados nos rios ou reutilizados como material de construção. Simultaneamente se formavam grupos em Dublin e em Belfast. No Brasil, na diocese de Campos, da qual já falei, a população ficou agrupada em torno dos padres excluídos de suas paróquias pelo novo bispo; desfiles de 5.000, 10.000 pessoas percorreram as ruas.

É portanto o bom caminho que nós seguimos; a prova está aí, a árvore se reconhece pelos seus frutos. O que fizeram clérigos e leigos apesar da perseguição do clero liberal — pois, dizia Luis Veuillot “nada há mais sectário do que um liberal” — é quase miraculoso.

Não vos deixeis iludir, caros leitores, pelo termo ”tradicionalista” que se tenta fazer tomar em mau sentido. É de certo modo um pleonasmo, pois não vejo o que pode ser um católico que não fosse tradicionalista. Creio tê-lo demonstrado neste livro, a Igreja é uma tradição. Nós somos uma tradição. Fala-se também de “integrismo”; se se entende com isto o respeito da integridade do dogma, do catecismo, da moral cristã, do Santo Sacrifício da Missa, então sim nós somos integristas. Mas eu não vejo como possa ser católico quem não fosse integrista neste sentido.

Escreve-se também que minha obra desaparecerá depois de mim, porque não haverá bispos para substituir-me. Estou certo do contrário, não tenho inquietação alguma. Posso morrer amanhã, o Bom Deus tem todas as soluções. Encontrar-se-ão pelo mundo, eu o sei, bispos suficientes para ordenar nossos seminaristas. Mesmo se ele se cala hoje em dia, um ou outro destes bispos receberia do Espírito Santo a coragem de se erguer a seu turno. Se minha obra é de Deus, Ele saberá mantê-la e fazê-la servir ao bem da Igreja. Nosso Senhor no-lo prometeu: as portas do inferno não prevalecerão contra ela.

É por isso que eu me obstino, e se quereis conhecer a razão profunda desta obstinação, ei-la. Eu não quero, na hora de minha morte, quando Nosso Senhor me perguntar: “Que fizeste de teu episcopado, da tua graça episcopal e sacerdotal?” ouvir de sua boca estas palavras terríveis: “Tu contribuíste para destruir a Igreja com os outros.”

4 de julho de 1984

1. LA REFORMA LITURGICA, Edizioni Liturgiche, Roma.


Carta Aberta aos Católicos Perplexos. Mons. Marcel Lefebvre.
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